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Fonoaudiologia e Transdisciplinaridade

O fonoaudiólogo é o profissional que atua nas áreas de prevenção, avaliação e diagnóstico e terapia de alterações da audição, da linguagem oral e escrita, da voz e da fluência, da articulação da fala e dos sistemas miofuncional, orofacial, cervical e de deglutição.

A prática da fonoaudiologia ocorre no Brasil desde a década de 1920, porém, somente na década de 1960 foi institucionalizada com os primeiros cursos de graduação. Esta ciência ainda relativamente jovem encontra suas bases teóricas entre a Medicina, a Psicologia, a Psicanálise, a Linguística e a Educação. E esse conjunto de saberes pode apresentar diferentes arranjos, de acordo com a escola científica de cada curso de formação. A fonoaudiologia dispõe de técnicas terapêuticas próprias respaldadas cientificamente e pela prática clínica, entretanto a condução desse corpus teórico varia significativamente de acordo com as referências de cada clínico.

“A que território pertence a palavra? Ao corpo ou à mente? Sem um instrumento corporal afiado, não há fala. Ou ela acontece de um modo torvo, deficiente, podendo prejudicar ou mesmo impedir a comunicação. E, no entanto, problemas intelectuais ou emocionais podem também prejudicar, impedir ou distorcer a comunicação, às vezes de um modo muito mais grave. Sobretudo, a conscientização do modo como articulamos as palavras e frases de acordo com as circunstâncias pode nos levar a saber mais sobre nós mesmos.” (SILVA, M. E. Prefácio In. CUNHA, M.C. 2001)

A citação ilustra o pensamento da fonoaudióloga Maria Cláudia Cunha, a partir do qual passei a compreender que o fonoaudiólogo deve ter suas “duas orelhas” bem atentas: uma à serviço do ouvir os sons captados pela audição e outra para escutar o que está além do sintoma clínico trazido como queixa, mas também está diretamente relacionado a ela. Esse é o estilo da clinica fonoaudiológica à luz da teoria psicanalítica. Trata-se então de propor um deslocamento da relação terapêutica de ensino-aprendizagem para uma relação intersubjetiva, onde a noção diálogo se torna o fio condutor das construções do setting terapêutico daí a diante.

Inspirada nessa concepção de que a linguagem é o conjunto de gestos e palavras que compõe a construção dialógica é que proponho a clínica fonoaudiológica sob a égide da transdisciplina num processo de deslizamento da fonoaudiologia, à psicanálise, mas também à psicologia e à educação, conforme a necessidade de cada paciente. Deixando sempre em relevo minha formação – uma fonoaudióloga de crianças.