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fonoaudiolologo que fala mais

O fonoaudiólogo, aquele que fala mais.

O fonoaudiólogo conduz sua prática clínica conforme a corrente teórica a qual se filia, em geral fundamentado em um viés comportamental, inatista ou dialético. Recentemente, o pai de uma pequena criança fez um comentário que embora simples e direto, disse muito do trabalho do fonoaudiólogo em clínica de linguagem conforme nossa prática, que se baseia no diálogo entre o Interacionismo e a Psicanálise: “A diferença entre o teu trabalho e o da psicóloga é que tu falas mais”. Pensamos que precisamente o falar mais é o que singulariza a nossa clínica de linguagem

Em nossa prática falamos muito. Falamos descrevendo as cenas do brincar; falamos emprestando nossa fala à criança ao nos colocarmos no lugar dela ativamente para expressar um pedido, comentário ou reclamação e, falamos emprestando também nossa criatividade a fim de oferecer possibilidades de desdobramentos para cenas de brincar frágeis ou empobrecidas.

Compreendendo que para que o sujeito se aproprie da língua necessita estar em relação com o semelhante dentro de um contexto que desperte o desejo, as sessões terapêuticas não são estruturadas com propostas previamente determinadas pelo clínico. Ao contrário, partir dos objetos de interesse da criança vamos procurando alongar a rede significante.

No consultório, um dos brinquedos que mais interessa às crianças é o posto de gasolina – um brinquedo com muitas possibilidades (abastecer, lavar o carro, trocar pneus, subir de elevador ao estacionamento…). Muitas crianças começam a brincar com esse posto de forma bastante limitada, como por exemplo, elevando e abaixando os carros no elevador, sem pausa. Nesse momento podemos ir dizendo “subiu… desceu”, enquanto a criança vai começando a organizar sequencias e associar os significantes oferecidos no momento do ato motor.

Num segundo momento, a partir do modelo oferecido pela fonoaudióloga, a criança poderá passar a ocupar uma posição ativa na linguagem utilizando a língua em seus primeiros fragmentos de palavra. As possibilidades de ampliação e variação de tal cena são inúmeras. O carro poderá ir passear, poderão ser incorporados novos elementos cênicos como bonecos, animais, outros veículos, etc. Se a criança ainda não puder acrescentar tais elementos à narrativa do brincar, caberá ao fonoaudiólogo propor cortes que possibilitem um desdobramento como por exemplo: “Poxa, ele está ficando cansado de subir e descer. Que tal parar para descansar e beber uma água?” (sim, nesta cena os carros podem descansar!)

Desse modo fica evidente o quanto nós falamos mais do que os psicólogos ou psicanalistas, porque estamos num lugar em que podemos oferecer instrumentos, para que a partir de experiências clínicas estimulantes, a criança possa ir ampliando sua rede significante e ser capaz de falar de si na relação com o outro.

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